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A fim de esclarecer algumas ideias e dogmas, bem como alguns conceitos que parecem de forma mais ou menos introduzidos nas nossas mentes, e após a leitura de alguns documentos e livros que me foram recomendados, vi-me confrontado com, por um lado, uma nova (para mim) perspectiva do conceito de Desporto e por outro, com a constante associação da minha modalidade desportiva de eleição, o Ciclismo, com o doping. Assim, e motivado por isto e pelo facto de quando me identifico com a modalidade perante colegas da área ou outros, constantemente ser abordado (umas vezes em jeito de brincadeira, outras nem tanto), como “um dos do doping", pretendo aqui em primeiro lugar fazer uma abordagem muito geral do desporto em Portugal e do conceito do mesmo e em seguida, tentar de alguma forma desmistificar essa associação (ciclismo e doping) e demonstrar que, embora padeçamos de tal mal, não somos os únicos a sofrer deste, mas parecemos ser historicamente os que desde mais cedo se preocuparam com tal problema e provavelmente continuamos hoje em dia a ser os que mais se preocupam com o mesmo. Basta ver, que mesmo em Portugal, existem equipas em que no contrato com o patrocinador, dispõem de uma cláusula em que se um dos ciclistas dessas equipas for diagnosticado como “dopado”, o contrato é imediatamente anulado e a equipa fica sem patrocinador e é de referir que num dos casos este é mesmo o principal patrocinador da equipa e o subsidiário sem o qual a mesma não sobrevive.
O desporto em Portugal
Gostaria de começar a minha reflexão exactamente por abordar um tema que parece estar envolto em grande controvérsia no nosso país, este é nem mais nem menos do que exactamente o conceito de desporto. Assim, somos confrontados com duas perspectivas diferentes do conceito de desporto, que concorrem entre elas, levando muitas vezes os defensores de cada uma delas a entrarem em confrontos ideológicos, que na minha perspectiva, por vezes excedem o limite da razoabilidade, recorrendo a meios menos ortodoxos e a criticas que roçam os aspectos pessoais e chegam mesmo a tocar o insulto, utilizando algumas estratégias que não me parecem muitas vezes coadunarem-se com pessoas de ciência em busca do conhecimento. Assim, o depois de conhecer ambas as perspectivas, penso ser claro que ambas procuram dar a melhor resposta á realidade actual e á evolução do desporto em si, do mercado cultural e acima de tudo comercial e económico desenvolvido á sua volta. Assim, e sendo este um trabalho com o intuito de análise critica, penso que ambos os modelos dispõem das suas falácias e das suas virtudes, mas acima de tudo penso ser fundamental a elaboração de um modelo único no qual todos os profissionais da área se revejam de forma a não andarmos a falar em linguagens diferentes e nunca sabermos ao certo do que estamos a falar. Outro aspecto que considero importante é o facto de, na minha concepção, devermos resolver estes aspectos de forma aberta e em diálogo, mas de forma civilizada e quem sabe talvez até interna, com todos os intervenientes e áreas ligadas ao desporto, mas não passando, como acontece actualmente para a sociedade a imagem de que nesta área do conhecimento ninguém se entende. È verdade sem dúvida que somos uma ciência, pelo menos enquanto ciência (e não querendo entrar nas questões também já levantadas questionando se deveremos denominar ciência ou ciências do desporto) recente e que temos um longo caninho a percorrer em busca do conhecimento, mas não me parece que seja com este tipo de abordagem que poderemos andar mais rápido no sentido do conhecimento. Assim, e em jeito de conclusão, parece-me que os defensores do conceitos de “Actividade física” diferenciada do conceito de Desporto procuram no fundo dar uma resposta á nova realidade, nomeadamente os desportos ligados ao fitness e as actividades físicas de carácter não competitivo. Enquanto, por outro lado, os defensores de um conceito de Desporto que englobe estas novas realidades, pretendem no fundo afirmar que estas são também disciplinas da vasta área do Desporto e portanto devem estar sob as normas, regulação e os olhares desta área de conhecimento, uma vez que a interpretação contrária, poderia levar a ser criada uma área específica e diferenciada só para a chamada “Actividade Física”.
Concluindo, acima de tudo, penso ser fundamental a unificação do conceito de forma a não andarmos todos a falar linguagens diferentes com desentendimentos constantes, e a sujeitar os nossos estudantes, como o nosso caso, a ouvir e aprender diferentes definições do mesmo objecto, apenas porque trocamos de professor, sujeitando-nos a chegar a um ponto em que os mesmos sejam “obrigados” a para cada disciplina, em função da visão do professor, responder ao mesmo de forma diferente.
Deixando estes aspectos de parte, passo em seguida á observação dos dados referentes á prática desportiva federada em Portugal entre os anos de 1996 e 2003, servindo esta de mote para a abordagem seguinte referente ao enquadramento e visão social do ciclismo.
Evolução da prática desportiva da População Portuguesa
Segundo O IDP (2005), Entre 1996 e 2003 a prática desportiva federada aumentou em mais de 111000 praticantes, o que em número absoluto de praticantes significa que aumentou de 266000 praticantes em 1996 para 377000 em 2007, o que corresponde a um aumento de 42% do valor inicial.
Segundo os mesmos dados, podemos também verificar que a percentagem de praticantes federados vai diminuindo com a idade, sugerindo que a importância da prática desportiva decai ao longo da vida de cada cidadão. Estes dados, são dados relativos a informações enviadas pelas federações nacionais. No entanto, segundo alguns autores como Bento (2007), desporto não se refere apenas a actividades físicas com carácter organizado e competitivo, mas também a toda uma vasta panóplia de actividades sem carácter competitivo, mas com outras finalidades. Assim sendo, dos dados fornecidos pelo IDP, deixam de constituir uma referência quando pretendemos analisar a prática desportiva da população portuguesa, pois todas as pessoas envolvidas em actividades ministradas pelos imensos ginásios disponíveis pelo pais e todas as pessoas que se envolvem em práticas desportivas, muitas vezes regulares, pelo simples prazer da prática desportiva ficam á partida excluídas destes dados, uma vez não estarem filiadas em nenhuma federação.
Assim, não devemos analisar desta forma tão linear os dados fornecidos pelo IDP, sem no entanto lhes retirar a importância que efectivamente têm, quando queremos definir a prática desportiva da população portuguesa, como ocorre algumas vezes em algumas palestras ou apresentações a que assistimos. Assim, e tal como muito bem referenciado pelo IDP, devemo-nos referir aqueles números como os números da prática desportiva federada em Portugal. Pior erro é ainda com base nestes números tentar determinar o número de abstinência desportiva da população portuguesa.
Assim, e após esta reflexão em jeito de desabafo, por algumas coisas que observamos serem referidas por alguns membros proeminentes da nossa sociedade, mas que nunca se preocuparam em efectivamente verificar como são e funcionam as coisas no nosso meio.
Em defesa do Ciclismo Português
Um outro estigma muito generalizado na população portuguesa, e nomeadamente no meio académico, como podemos verificar pela leitura de alguns livros e alguns autores de referência na área, é que a modalidade desportiva de referência, no sentido negativo, no que concerne ao doping é o ciclismo. Assim, e de forma algo redutora e ignorante, deparamo-nos hoje em dia com muita gente a associar o ciclismo ao consumo de substancias dopantes como sendo a única modalidade a sofrer de tal mal ou a que efectivamente regista mais casos de controlo positivo de doping. Este ataque á modalidade, que acaba por afectar a imagem da mesma, parece-me muitas vezes excessivo e fruto mais de uma mediatização dos casos efectivamente encontrados do que fruto da realidade em causa no nosso pais. Para este facto, penso muito contribuir o facto de quando pesquisamos sobre esta matéria, normalmente os primeiros dados que encontramos são relativos efectivamente ao ciclismo, sendo que estes normalmente são apresentados desde logo ao inicio, não pela sua relevância em termos comparativos com as outras modalidades, mas sim por a história do controlo anti-doping no ciclismo ser maior, ou seja ter começado a efectuar-se este controlo anteriormente, comparativamente a todas as outras modalidades.
Penso desde já ser conveniente referir, que o ciclismo, foi a primeira modalidade a ter um controlo anti-doping e não por motivos de imposição externa á modalidade, mas sim por imposição interna da modalidade. Assim, no que respeita ao combate ao doping, podemos afirmar que a modalidade pioneira no mesmo, foi exactamente o ciclismo, mostrando desde muito cedo a sua posição face a este problema. Para além disso, penso ser também relevante o facto de em Portugal, desde o ano de 1969, e até ao ano de 1980, o ciclismo ter sido a única modalidade com a preocupação de controlar este problema do sistema desportivo, ou seja, nos primeiros 11 anos de luta conta o doping, a única modalidade a efectuar controlo anti-doping em Portugal foi exactamente o ciclismo. No ano de 1980, verificamos que houve 2 modalidades efectuar o referido controlo, sendo obviamente uma delas o ciclismo, registando no entanto que no ano seguinte ou seja em 1981, voltamos á situação inicial com o ciclismo a ficar novamente sozinho no que respeitava a esta matéria, situação que se alterou de novo em 1982 onde este tipo de procedimento passou a estar presente em 5 modalidades desportiva. Assim, penso que fica claro desde já, qual a modalidade que efectivamente parece desde há muito ter como sua preocupação este flagelo do desporto actual e como objectivo primordial criar desde logo as condições de igualdade em competição por todos aclamadas.
Por outro lado e passando para factos mais recentes, referindo-me apenas aos dados relativos a Portugal, proponho-me em seguida justificar as posições já anteriormente assumidas com base nos relatórios anuais apresentados pelo CNAD e pelo IDP desde o ano de 2002 até 2006.
Quadro 1. - Casos de doping em Portugal entre 2002 e 2006
| 2002 Casos positivos | 2003 Casos positivos | 2004 Casos positivos | 2005 Casos positivos | 2006 Casos positivos | |||||
| N | % | N | % | N | % | N | % | N | % |
Actividades subaquáticas | | | | | | | | | 1 | 3,33 |
Andebol | 1 | 2,33 | 2 b | 1,54 | | | | | 1 | 1,23 |
Artes marciais | | | | | | | | | | |
Atletismo | 3 a | 0,85 | | | 3 b | 1 | 2 | | 2 | 0,59 |
Automobilismo | | | 2 | 4,55 | 8 | 18 | 5 | | 4 | 4,60 |
Badmington | | | | | | | | | | |
Basquetebol | | | | | 1 | 0,8 | | | 4 | 2,80 |
Bilhar | ||||||||||
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