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Sendo o desporto o fenómeno social com a importância que tem hoje, pelo numero de praticantes que envolve, torna-se clara a necessidade de separação dos praticantes mediante determinados critérios. Um desses critérios, e o mais primário de todos, refere-se á idade cronológica dos praticantes. Assim, cada modalidade, divide os seus praticantes em diferentes escalões competitivos. No entanto e com vista á obtenção de resultados de excelência no campo desportivo, torna-se clara a necessidade de sistematizar para cada modalidade os objectivos, oportunidades e capacidades dos atletas. Assim, cada modalidade, deverá dispor de um plano de carreira para os seus praticantes.
Com o intuito de analisar o plano de carreira no ciclismo em Portugal, e recorrendo á Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), verifiquei, que tal não existia em termos formais, mas ia constando de forma implícita em vários documentos, ou elementos de formação fornecidos ou apoiados pela mesma. Assim, e com base em todos esses documentos, passo em seguida a apresentar o resultado desta pesquisa.
Para iniciar esta análise, começo por expor pelo quadro seguinte como está organizada a prática ciclistica em Portugal, em função da idade.
Quadro 1- Organização da prática ciclistica em Portugal
| Categorias | Idades |
Escolas de Ciclismo | Iniciados Infantis Juvenis | 7 – 10 Anos 11 – 12 Anos 13 -14 Anos |
Ciclismo de Competição | Cadetes Juniores Sub 23 Elites | 15 – 16 Anos 17 – 18 Anos 19 – 22 Anos > 23 Anos |
Ciclismo de Manutenção | Veteranos A Veteranos B Veteranos C | 30 – 39 Anos 40 – 49 Anos > 49 Anos |
Ciclismo Para Todos | Cicloturistas | ------------------------------- |
Pela observação do quadro, podemos verificar que no nosso país, existem quatro níveis de prática de ciclismo, sendo que em três deles existe o factor competitivo subjacente e em um deles tal não acontece. Isto leva a que, um individuo com idade para estar num dos escalões promotores de competição, possa, caso não queira competir, continuar a sua pratica desportiva mantendo a sua filiação, mas não competindo.
Assim, vemos que até aos catorze anos, os praticantes da modalidade, são integrados nas escolas de ciclismo, e que estas se encontram divididas em Iniciados, Infantis e Juvenis. Nas escolas de ciclismo, a competição consiste fundamentalmente nas chamadas “gincanas”, ou seja em exercícios de destreza motora em cima da bicicleta. Existindo no entanto nas idades mais tardias algumas provas de com alguma semelhança com o ciclismo de estrada, mas com uma quilometragem muito reduzida.
Seguidamente, em termos cronológicos, aparece o ciclismo de competição. Este, contempla os escalões de Cadetes, Juniores, Sub 23 e Elites. O denominado ciclismo de competição, por ser a fase onde se espera a preparação específica para a obtenção do mais alto rendimento, começa no ano em que os atletas cumprem os 15 anos de idade, e prolonga-se até aos 30 anos. No entanto, atletas que continuem integrados em equipas e com contratos de profissionais após esta data, continuam a pertencer a este grupo, tendo portanto as mesmas regras e normas dos atletas do escalão de Elites. Convêm referir que este estatuto de profissional não se refere á constituição Portuguesa, mas sim á inscrição na União Ciclista Internacional (UCI), e ás normas da mesma.
Depois do ciclismo de competição, vem o ciclismo de manutenção, que embora disponha deste nome, tem também uma componente competitiva. Assim, o denominado ciclismo de manutenção, integra os ciclistas de idade igual ou superior a 30 anos, que não estejam a competir ao mais alto nível, ou seja que não estejam integrados em equipas profissionais, e não tem limite de idade (existindo em Portugal praticantes com 70 anos a participar em competições e a obter mesmo resultados deveras impressionantes).
À margem de todo este processo, encontram-se os praticantes do denominado “Ciclismo Para Todos”. Que consiste numa “pratica desportiva” (não nos debruçando sobre o conceito de desporto e a sua actual discussão e indefinição) utilizando a bicicleta e que é fundamentalmente caracterizada por encontros onde se fazer uma “espécie de passeios” de bicicleta. Este, não é o formalmente denominado cicloturismo, uma vez que esse tem uma Federação própria, mas os conceitos base são idênticos.
Seguidamente passamos a analisar aquilo que é recomendado pelos livros publicados com o apoio da Federação Portuguesa de Ciclismo (escritos pelo Seleccionador Nacional da altura (2006))
O treino das capacidades em jovens. A presença de professores e treinadores.
Segundo Algarra (2006), a figura do professor de educação física ou do treinador especializado em ciclismo, constitui a ponte de ligação entre a criança e o ciclismo. O papel do professor nas primeiras etapas de formação do ciclista adquire um relevo pedagógico para além da sua participação no treino físico e técnico. Nas funções do professor ou treinador, incluem-se responsabilidades de formação desportiva, assim como de carácter social, intelectual e afectivo, como tal, este deve desenvolver estratégias de forma a:
-Propiciar uma componente teórica no treino
- Gerar nas crianças um sentimento de responsabilidade que incuta o carácter sistemático do treino.
- Evitar o culto dos resultados imediatos
- Propiciar o incremento progressivo das cargas de treino
- Promover o desenvolvimento integral do ciclista
Assim, aquilo que se pretende é que os ciclistas que se iniciam muito jovens na prática do ciclismo, tenham um desenvolvimento integral de pessoas formadas em diferentes âmbitos e não só no contexto exclusivo do ciclismo ou seja com uma prática desportiva que não se reporta apenas e exclusivamente ao andar de bicicleta. Em Portugal, encontra-se estabelecido uma sistematização plurianual na formação dos jovens ciclistas.
O processo plurianual de formação de um ciclista, segundo a Federação Portuguesa de Ciclismo, estrutura-se baseado nos seguintes períodos (que segundo a mesma estão em sintonia com a evolução biológica do ciclista):
-Etapa inicial de descoberta e familiarização como ciclismo (11-13 anos)
-Etapa de desenvolvimento de treino base (14-16 anos)
-Etapa de formação e desenvolvimento específico (17-19 anos)
-Etapa de manifestação de possibilidades (20-23 anos)
-Etapa de confirmação ao máximo nível (24-27 anos)
-A partir de 28 anos até abandonarem o ciclismo de competição, os ciclistas percorrem uma etapa complementar, que a FPC chama de “maturidade”, onde o rendimento pode aumentar com a experiencia e a preparação adequada.
Períodos Plurianuais
Etapa inicial (11-13 anos): treino das capacidades
Segundo o material analisado, no ciclismo em Portugal, e de forma a separar os praticantes mais experientes e os que se iniciam num determinado momento na modalidade, estão definidos dois níveis de treino, um inicial para quem inicia agora a modalidade e que é composto por 1 a 2 sessões semanais e outro de nível intenso que contempla 2 a 5 sessões semanais. Estas na etapa inicial, deverão incidir especificamente em:
Capacidades físicas:
. Resistência aeróbia: treino intenso 2-5 sessões/semana
. Força - Velocidade: treino inicial 1-2 sessões/semana
. Velocidade de reacção: treino intenso 2-5 sessões/semana
. Velocidade – Resistência: treino inicial 1-2 sessões/semana
. Velocidade cíclica (frequência de pedalada): treino intenso 2-5 sessões/semana
. Flexibilidade: treino de rendimento (incluir em cada sessão)
Qualidades motoras:
Técnica ciclista individual: treino intenso 2-5 sessões/semana
Etapa de desenvolvimento de treino base (14-16 anos)
Trabalho multifuncional realizado com todo o tipo de bicicletas e se possível em diferentes vertentes. Aperfeiçoamento técnico individual.
Desenvolvimento especifico da técnica colectiva (“andar na roda”, sprint, etc..).
Iniciação ao pensamento táctico.
Incidência sobre as capacidades físicas de resistência, força e velocidade com as restrições lógicas impostas pelo processo de maturidade fisiológica.
Nível inicial 1-2 sessões/semana; nível intenso 2-5 sessões/semana
Capacidades Físicas:
. Resistência aeróbia: treino intenso
. Resistência anaeróbia: nível de treino inicial
. Força máxima: nível de treino inicial
. Força – Velocidade: nível treino intenso
. Força – Resistência: nível treino inicial
. Velocidade de reacção: nível de treino intenso
. Velocidade - Resistência: nível treino intenso
. Velocidade cíclica (frequência de pedalada): treino intenso
. Flexibilidade: nível de rendimento (incluir cada sessão)
Qualidades motoras:
Técnica colectiva e aperfeiçoamento individual, trabalho de mais de uma hora semanal segundo a fase da temporada.
Nesta etapa existe predisposição fisiológica para suportar um trabalho de alto rendimento dirigido às diferentes manifestações da sua condição física:
. Resistência aeróbia: nível de treino de rendimento
. Resistência anaeróbia: nível de treino intenso
. Força máxima: nível de treino intenso
. Força – Velocidade: nível de treino rendimento
. Força – Resistência: nível de treino intenso
. Velocidade de reacção: nível de treino rendimento
. Velocidade - Resistência: nível de treino rendimento
. Velocidade cíclica (frequência de pedalada): nível de treino rendimento
. Flexibilidade: incluir cada sessão
Qualidades motoras (técnica individual e colectiva), procura de aperfeiçoamento técnico mediante sessões específicas
Compreensão para a complexidade táctica
Etapa de manifestação de possibilidades (20-23 anos) e acima
Segundo a Algarra (2006) do ponto de vista físico já se produziu um planalto quanto á evolução do consumo máximo de oxigénio, o que poderá ser um pouco um abuso de linguagem, uma vez que como sabemos podemos ainda aumentar este consumo. Ainda segundo o mesmo autor, a evolução do seu desempenho vai ser determinada pela melhoria do limiar anaeróbio, da capacidade aeróbia e do metabolismo anaeróbio.
Assim, a partir desta idade deixam de existir referências ou indicações no que refere á metodologia de treino a adoptar para os atletas, uma vez que parece considerar-se que o percurso de formação já está concluído e por isso, as metodologias a aplicar de agora em diante devem visar o rendimento desportivo.
No que respeita ao ciclismo de manutenção, embora este seja na verdade aquele que dispõe de um maior número de praticantes, em termos de indicações metodológicas ao nível da prescrição de treino, este não é alvo de grandes preocupações por parte das entidades competentes. Atitude de certa forma justificável por este já não ter as preocupações nem possibilidades de competição ao mais alto nível, nem os mesmos padrões de exigência, e por se tratarem já normalmente de indivíduos com a sua formação ao nível do ciclismo completa. No entanto, talvez também aqui fosse bom existirem algum tipo de recomendações, uma vez que assistimos cada vez mais, á estrada nesta fase de pessoas que nunca antes praticaram a modalidade e que por vezes se envolvem em programas de treino muito pouco racionais e muito pouco indicados.
Reflexão final
É com alguma tristeza que no final deste trabalho, chego a algumas conclusões menos interessantes quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista académico e científico. Assim, não posso deixar de referir a pouca colaboração demonstrada pela FPC em colaborar com este tipo de trabalhos. Embora num primeiro contacto tenha demonstrado uma cordialidade exemplar, quando procurei obter informações sobre a temática para o presente trabalho, deparei-me com várias dificuldades (entre as quais a ausência de colaboração de FPC) e acabei por me ver obrigado a socorrer-me da bibliografia existente no mercado e de algumas entrevistas a alguns técnicos, comissários, organizadores de provas e a pessoas ligadas de forma institucional á modalidade. Por outro lado, é de registar a forma pouco sistematizada como é abordada e contextualizada esta matéria em Portugal e a falta de fundamentação do modelo de formação nacional, dando a entender que é um modelo baseado em outros já existentes e não desenvolvido de acordo com uma fundamentação própria. Por outro lado, não posso ainda deixar de referir o pouco rigor cientifico, académico e de conteúdos reflectido por alguns dos documentos existentes em Portugal.
Outro aspecto também de relevo, passa também pela dificuldade de obtenção do mesmo tipo de informação através das federações de ciclismo dos outros países, revelando algum descorar desta temática por parte da comunidade ciclista em geral. Ainda assim, e após a observação de alguns modelos de outros países, no que respeita á classificação dos ciclistas quanto á idade e ao enquadramento na mesma, alguns modelos diferem um pouco do registado em Portugal, no que refere aos escalões de formação, sendo no entanto todos bastante idênticos.
No que respeita ao ciclismo nacional, as indicações dadas directamente pela FPC são ainda algo escassas, no entanto, podemos encontra-las em livros publicados com o apoio da mesma. Ao analisar esses mesmos livros, a sensação quem que se fica, é que os livros tentam ser “politicamente correctos” e corresponder a determinados pressupostos teóricos, esquecendo no entanto outros e mostrando algumas vezes algum desfasamento entre as indicações cronológicas para a realização de determinado tipo de trabalho com o intuito de desenvolver determinada capacidade e as idades críticas em que estas devem ser desenvolvidas. Assim, o resultado, é que na prática ninguém se rege por este tipo de metodologia (segundo informações que procurei obter junto de vários técnicos da modalidade).
Em jeito de conclusão desta análise, penso que se pode dizer que esta temática em Portugal, está praticamente ao abandono e que não existe um verdadeiro plano de carreira no ciclismo, mas sim a divisão por idades dos escalões competitivos e uma tentativa de fornecer algumas indicações quanto ao tipo de trabalho a realizar em cada um deles, elaborada de forma quase empírica.
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