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Em desportos de endurance, existe um elemento que todos os atletas necessitam de confrontar, a dor. Existem três tipos de dor, emocional, dor relacionada com a lesão e dor como resultado de um exercício intenso e prolongado com elevado consumo energético. O desconforto físico não derivado de lesão no desporto, é um factor limitativo durante a competição. Este desconforto físico no caso dos desportos de endurance pode resultar de diversos factores: (a) uma elevada frequência cardíaca, a qual excedeu o sue nível de conforto, (b) um aumento de lactato sanguíneo, (c) a depleção e esgotamento de glicogénio muscular, (d) fadiga dos músculos respiratórios e (e) desidratação (Brooks, Fahey, & White, 1996).
De atletas que desenvolvem estratégias de coping para tolerar elevados níveis desta dor não derivada de lesão, espera-se uma melhor performance do que daqueles que não possuem essas estratégias (Azevedo & Samulski 2003, Egan, 1987;Masters, 1998,0'Conner, 1992).
O'Conner (1992), refere o Tour de France como o maior teste á capacidade de endurance. Greg LeMond, vencedor do Tour de France por três vezes, afirmou que “os melhores trepadores são aqueles que conseguem suportar a maior dor... no ciclismo profissional tudo dói” (Avins, 1986, p.44).
Kress e Staller (2005), verificaram que existe uma relação entre a preparação física e mental e a capacidade de lidar com a dor. Os mesmos autores referem, que durante os momentos críticos da competição, os ciclistas focam a sua atenção em aspectos específicos da sua performance. Aspectos estes como a mecânica da pedalada, e a forma como a estão a realizar no momento, a adopção ou manutenção de uma posição o mais aerodinâmica, a estratégia da corrida, o ciclista na dianteira, a respiração e o controlo da mesma. Á medida que a dor aumenta, a melhor forma de lidar com esta é o ciclista focar-se nos aspectos da performance que o podem levar á meta nas melhores condições possíveis (Kress & Staller, 2005).
Kress e Staller (2005), indicam ainda que durante a competição os ciclistas podem variar o seu foco atencional de acordo com as necessidades momentâneas da competição. Assim, pode existir um foco externo como a linha de meta ou um foco interno como os aspectos da técnica já abordados.
Estes dados estão de acordo com Weinberg e Gould (2003), que referem que a concentração é “focar a atenção nas pistas no envolvimento e manter o foco atencional dirigido para estas”.
Voltando ao tema central deste trabalho, uma outra forma de lidar melhor com a dor, consiste em elaborar e/ou aderir a um plano para a corrida. Assim, quando os ciclista têm objectivos específicos para e corrida ou treino e ou estão a realizar algo previamente planeado com determinado objectivo e este está ciente do processo, o mesmo consegue lidar melhor com a dor e “dar um pouco mais de si mesmo”. Por outro lado, a literatura indica também que o facto de o ciclista se sentir preparado ou não para a competição influencia a forma como este percepciona a dor. Assim, quando este se sente preparado mental e fisicamente para uma competição, a sua percepção de dor durante a mesma é menor.
Seguindo a mesma linha de raciocínio podemos dizer que a confiança do ciclista desempenha assim um papel fundamental no processo de percepção da dor. Muitos factores contribuem ao desenvolvimento da confiança. De acordo com Weinberg e Gould (2003), aqueles factores que podem melhorar a confiança são realizações do desempenho, agir de forma confiante, pensando confiante e condicionando fisicamente o organismo. Desta forma, podemos verificar que todos estes factores se interligam e associam podendo formar ciclos consequentes.
Mais uma forma para melhorar a forma de lidar com a dor consiste em efectuar a visualização mental da corrida que o ciclista vai fazer, antevendo entre outras coisas, o percurso a percorrer e possíveis sensações que poderão ocorrer sensações durante a competição. Desta forma verificamos que esta não só é importante para a obtenção de uma melhor performance (Suinn, 1993), mas também e de forma interligada é importante para lidar com a dor.
Uma outra forma descrita na literatura, consiste na denominada “Positive Self-Talk”, ou seja, o ciclista fala consigo mesmo de forma positiva (ex: Eu treinei para isto. Eu estou preparado. Ficará mais fácil em breve. Todos os outros estão também a sofrer. Eu estou a sofrer, mas os outros estão a sofrer ainda mais.).
Os estudos indica também e indo de acordo com o anteriormente referido, que quanto mais confiante está um ciclista maior capacidade este tem para suportar a dor ou levar até ao final o episodio que está na promoção da mesma sem que a mesma o faça accionar mecanismos de defesa como redução da intensidade de esforço. Este facto poderá ser relacionado com outro aspecto que se prende aos resultados positivos da dor. Assim, o ciclista sabe que vivenciando episódios de dor (em determinadas fazes da competição) pode atingir resultados positivos. Estes resultados positivos consumam-se em recompensas que podem vir de várias formas, vencendo a corrida, atingindo a satisfação de ter cumprindo determinado objectivo, etc. Assim sendo, o ciclista procura sempre esta recompensa, podendo ela variar de forma, e é esta que está na base do seu empenho e da sua capacidade de resistência á dor, pois esta concretiza-se como o objectivo final que implica um caminho onde os episódios de dor se encontram presentes.
A percepção de dor em ciclistas é muito fortemente influenciada por questões do controlo da situação, assim, os estudos indicam que a percepção de dor não se revela tão determinante na performance quando esta conceptual e estrategicamente é promovida pelo próprio indivíduo. Ou seja, quando a dor decorre de uma acção estratégica controlada pelo próprio ciclista, a percepção de dor não se revela tão importante para a performance. Em termos práticos os ciclistas lidam melhor com a dor quando por exemplo são eles que vão na frente a impor a velocidade do pelotão. Assim, ele (o ciclista) é que controla a situação. Por outro lado quando o ciclista não controla a situação, como por exemplo quando vai na parte de traseira do pelotão e passar por um episódio de dor, e é “obrigado” a ir a uma velocidade imposta por outros, parece ter mais dificuldade em lidar com esta mesma dor (segundo alguns ciclistas, “sofrimento” é quando outra pessoa dita a velocidade a que tu mesmo tens de andar). Estas situações são dadas apenas como exemplo, pois o que está na essência desta questão é a percepção de controlo do ciclista. Se este percepciona que está em controlo da situação, ele tem uma melhor capacidade de lidar com a dor, isto independente da sua colocação no pelotão ou na competição.
Relacionado com este aspecto, e referido por Kress e Staller (2005), é que o facto de a percepção da dor, no caso dos ciclistas, se encontrar relacionada com a performance desportiva e com a percepção dos mesmos dessa performance. Assim, e segundo os mesmos autores, vários ciclistas indicam que mesmo que todas as variáveis físicas sejas iguais (pulsação, potência mecânica, condição física, etc), a percepção de esforço varia de acordo com a situação de corrida. A posição na corrida, ainda no mesmo estudo, foi mencionada frequentemente como determinante na percepção da dor (quando um ciclista vai na frente ou em fuga do pelotão, a percepção de dor é menor, pelo contrario se o ciclista vai atrasado em relação ao pelotão, a percepção de dor é maior).
Concluindo, podemos dizer que os ciclistas encaram a dor em treinos e competição como algo necessário a que têm de se submeter. Os mesmos convivem com a dor de uma forma consciente, assumindo e aceitando a mesma ao invés de a tentarem ignorar. A dor é vista pelos ciclistas como algo necessário e de curto prazo, ou seja algo com uma duração temporal muito limitada. Os mesmos referem ainda que usando algumas estratégias como o planeamento, a visualização mental, a Positive Self-Talk, ajudam a lidar com a dor, e que quando se sentem preparados para uma corrida a sua percepção de dor é menor durante a mesma. Por outro lado é ainda referido que a percepção de dor esta relacionada com o desempenho na competição, e com o controlo (ou não) da situação de competição.
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